domingo, 30 de agosto de 2009

Os aviões


Ia com o meu pai ao aeroporto ver os aviões, subíamos a escadaria que dava acesso à varanda que ficava virada para a pista e aí ficávamos a observar os aviões que chegavam e partiam, as manobras que faziam, as escadas que lhes punham por onde saiam ou entravam as pessoas. A varanda estava sempre cheia de gente, alguns chorosos e outros nervosos, muitos atiravam o último beijo de muitos anos de separação e ficavam ali petrificados até o avião desaparecer entre as nuvens. Todo aquele reboliço assustava-me, os motores faziam muito barulho e estremecer o chão, mas eu com as minhas mãos a tapar os ouvidos, meio encolhida e encostada ao meu pai via aquelas máquinas ganharem lanço na pista e erguerem-se nos céus. Ouvia atentamente o meu pai explicar que os aviões transportavam as pessoas para locais muito distantes onde não se podia ir de carro nem de comboio.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A máquina de costura Singer


O meu pai chegou a casa com um objecto de plástico duro e cor bege, parecia uma pequena mala de viagem, era muito pesado e eu não conseguia adivinhar o que era. Colocou-o em cima da mesa da sala de jantar e percebendo a minha curiosidade, pressionou um pequeno botão que permitiu abri-lo mostrando o seu conteúdo. Era uma máquina de costura singer eléctrica e portátil. Logo de seguida determinou qual o sítio da casa onde ficaria arrumada, que era ao lado do móvel da sala de jantar encostada à parede por baixo da janela.


Fui crescendo e já não gostava das roupas confeccionadas pela minha família, queria as roupas bonitas que via nas montras das lojas e parecidas com aquelas que as minhas amigas usavam, mas eram caras e como eu achava que o meu pai não me daria dinheiro para as comprar decidi aventurar-me nas lides da costura, com o manual de instruções da máquina de costura singer e com o que aprendi em todos os anos que observei o meu pai a costurar, fui construindo o melhor que consegui o biquini às flores, as calças azulão, o macacão de cetim preto, o vestido cor-de-rosa, as saias floridas e até os sacos à tiracolo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O rapaz espécie de príncipe


Todos os passeios da minha mãe eram feitos na companhia dos tios que a criaram, e como a minha mãe era uma rapariga alegre tudo o que fosse festa e romaria era do seu agrado, como os bailes de Carnaval no Palácio de Cristal onde uma vez um simpático e elegante rapaz se aproximou dela e dos tios pedindo autorização para lhes oferecer um picolé, cujo consentimento foi dado com satisfação, tal era a delicadeza do rapaz. Passaram toda a noite na companhia do amável desconhecido que dançou pela madrugada fora com a minha mãe e que no final se ofereceu para os levar a casa no seu espectacular automóvel confessando a intenção de novo encontro nos dias seguintes. A minha mãe sentia-se uma cinderela assustada, achava que não servia para o rapaz porque não pertencia à sua condição e apesar da insistência dos tios decidiu não voltar a encontrar-se com aquele rapaz espécie de príncipe. Como não atendia o telefone, o rapaz decidiu montar guarda na porta de sua casa, obrigando a minha mãe a usar os seus dotes de disfarce para que pudesse passar por ele sem ser reconhecida, o que aconteceu diariamente durante uma semana, a minha mãe passava rente aquela espécie de príncipe envergando luto carregado com os olhos postos no chão como se a luz do dia lhe fosse insuportável. Ao fim daquela semana a minha mãe não voltou a ver o rapaz espécie de príncipe mas guardou sempre dentro de si aquele possível caso de amor.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Tudo Bom


Em casa da Bibi havia sempre sugus com sabor a morango, ananás e laranja, chupa-chupas com formas variadas e cobertura de baunilha e chocolates embrulhados em papel amarelo brilhante a imitarem moedas de ouro antigas e ainda pequenos guarda-chuvas de chocolate compacto que eu tanto adorava.


Assim que aí chegava a primeira coisa que eu fazia era ir directa à cristaleira, onde a Bibi guardava toda a doçaria, e verificar se havia tudo aquilo que eu tinha idealizado a caminho da sua casa, e se por acaso faltasse um doce que me apetecia, pedia à Bibi uma ou duas moedas para o ir comprar ao Tudo Bom, que era uma loja muito pequenina que ficava numa rua paralela à rua onde morava a Bibi, mesmo em frente à linha do comboio e que eu considerava um paraíso. No Tudo Bom havia de tudo, rebuçados de todos os sabores, caramelos, chupas, chocolates, pirolitos, sugus, estando tudo devidamente arrumado nuns grandes frascos transparentes.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A lavagem do automóvel


Lá em casa éramos quatro humanos e um automóvel que era tratado quase como humano, tal era o cuidado que o meu pai tinha com ele. Durante a semana estava parado no mesmo lugar com a sua capota cinzenta que o protegia do calor, da chuva e do pó; ao sábado e ao domingo eram os dias das voltinhas até à foz ou à aldeia. As segundas-feiras era o dia do banho e a pessoa responsável por essa tarefa era eu. O ritual era sempre o mesmo e não havia margem para erros. Primeiro sacudia os tapetes, de seguida limpava os estofos, volante, e tudo o que fosse de plástico, couro ou imitação de couro e estivesse no seu interior com um pano húmido não esquecendo os vidros e o espelho retrovisor com detergente limpa-vidros e jornal para que não ficasse qualquer dedada ou embaciado. Com o interior do carro perfeitamente limpo, seguia-se a parte exterior, cuja limpeza inicialmente consistia numas baldadas de água para retirar poeiras mais grossas que pudessem riscar a pintura, passando para o ensaboamento de toda a chaparia e vidros terminando nas jantes e face exterior dos pneumáticos, a secagem com pano fino e devidamente limpo era a parte final de todo este processo. Com o automóvel a brilhar era chegada a hora da colocação da capota cinzenta que não era feita de qualquer maneira, posta sempre da frente do carro para trás e depois para os lados, ajustando bem os elásticos para que todo o carro ficasse bem protegido. No fim desta tarefa eu suspirava de alívio, ainda tinha uma semana pela frente até à próxima lavagem.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A primeira palavra


Eu era uma bebé tranquila, chorava pouco, contemplava o mundo que me rodeava com curiosidade e quando balbuciei a primeira palavra era ainda tão pequenina que os meus pais ficaram espantados, o que já não aconteceu com os meus primeiros passos que tardaram em serem dados com segurança e firmeza. A palavra mãe foi das primeiras que aprendi, dava-me muito jeito porque sempre que a mencionava a minha mãe atendia-me sorrindo e perguntando o que queria; outra das palavras iniciais foi zé que repetia constantemente na presença do meu pai, mas que ele teimava em contrariar fazendo com que eu aprendesse a substituir o zé por pai o que para mim não deveria fazer sentido porque ele era o zé da minha mãe e era também o meu zé. E fui aprendendo outras palavras e a dar nome às coisas, mas o meu pai continuava a ser zé, apesar da sua tristeza, comentava amuado com a minha mãe “ela a ti chama-te mãe e a mim chama-me zé”.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O meu tio e os peixes


Entre as muitas fotografias do saco amarelo que me punham a sonhar, a do meu tio Alberto com os peixes transportava-me para paragens longínquas. O meu pai tinha-me dito que ele tinha ido para África, para a guerra, tinha ido num barco muito grande que demorou várias semanas a lá chegar. Eu até conhecia bem o barco, porque no saco amarelo havia um postal com um belíssimo navio no meio de umas ondas muito azuis que o tio Alberto nos enviou, onde dava conta de que estava bem e com muitas saudades. Em África permaneceu durante muito tempo e de vez em quando mandava-nos fotografias suas em que estava sempre muito feliz, acho que o fazia para atenuar o pavor daqueles que o amavam.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A prima Lena


A Lena era prima do meu pai e minha prima em segundo grau, morava com a tia dela que também era tia do meu pai e minha tia em segundo grau e que eu tratava por tia da Senhora da Hora porque vivia nesta localidade. Apesar da Lena ser alguns anos mais velha do que eu, era uma rapariga pequenina que tinha um olhar brincalhão e um sorriso permanente num rosto sardento. O que eu mais gostava quando íamos visitar a tia da Senhora da Hora, para além da broa com manteiga que comia sempre, era de me enfiar no quarto da minha prima Lena a ouvir as suas histórias de fadas, príncipes, lobos maus e tudo o que ela inventasse. Ela contava todas aquelas histórias com tal convicção que muitas vezes eu não sabia se ela estava a falar verdade ou a brincar e por mais que as ouvisse nunca me aborreciam, porque ela as adaptava fazendo com que parecessem sempre diferentes e sempre maravilhosamente fantásticas.

domingo, 9 de agosto de 2009

Jogo sem bola


No jogo sem bola não havia bolas, éramos todos bolas. Podíamos ser seis, dez e até mesmo vinte bolas. Não éramos chutados por ninguém, tínhamos pernas, braços, estratégia e capacidade de decisão para nos esquivarmos da bola que nos fazia frente e passarmos pela baliza da outra equipa e assim marcar um ponto como se fosse um golo, mas se a caminho da baliza fossemos travados pela bola da outra equipa éramos eliminados, ganhando o jogo a equipa que conseguisse eliminar todas as bolas da outra equipa. Este jogo era um dos meus favoritos porque eu era matreira e corria muito, conseguindo marcar muitos pontos e ficar até ao fim do jogo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Liberdade e comando


O meu pai fez um banquinho de madeira que acoplou à parte da frente do assento da sua vespa azul clarinho para que eu viajasse com ele de forma mais confortável e segura. Nas nossas viagens curtas e longas eu ia sentada no banquinho de madeira com os pés apoiados no estrado da vespa e as mãos bem firmes no guiador, estando o meu pai sentado mesmo atrás de mim envolvendo-me com os seus braços. Eu adorava andar na vespa com o meu pai, com o vento a dar-me na cara e aquela sensação de liberdade e comando.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Moscas


Aquelas terríveis moscas, as da aldeia do meu pai, aquelas que picam o gado que está no andar térreo da casa e quando se passeiam pelo andar superior como não têm vacas nem porcos para atacar, mordem as nossas pernas, os nossos braços e tudo aquilo que puderem, não nos restando outro remédio senão agitarmos todo o nosso corpo como se estivessemos constantemente com convulsões, sendo muitas vezes necessário recorrer a palmadas porque a agitação nem sempre as assusta. Um dos meus passatempos preferidos nas tardes dos domingos escaldantes de verão, era observar as moscas a tentarem devorar o meu pai e os meus tios que tentavam dormir a sesta após o almoço familiar. Chegava a contar mais de cinquenta moscas pousadas nos seus corpos suados, e eles completamente desmaiados de sono, lutavam com estes inimigos invencíveis que mesmo por cima de lençóis brancos insistiam no ataque.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A maquilhagem


Gostava de ver a minha mãe pôr pó-de-arroz nas maçãs do rosto e pintar os lábios com o batom carmim antes de sairmos, fazia-o com uma enorme satisfação que se notava nos sorrisos e poses que fazia para o espelho. Só se maquilhava quando saía sem o meu pai porque ele não gostava que ela se pintasse, se calhar porque tinha medo que a sua beleza encantasse os outros homens. Imagino que o meu pai quando começou a namorar com a minha mãe não lhe tenha dito nada, mas com o tempo foi impondo as suas vontades e ela foi cedendo até que deixou de se maquilhar nas saídas conjuntas, mas deixar definitivamente de se maquilhar, isso nunca o fez. Com o passar dos anos a minha mãe passou a fazer o que lhe apetecia e a não respeitar a vontade do meu pai em relação à maquilhagem, por isso, sempre que saía acompanhada ou não por ele o pó-de-arroz e o batom estavam sempre presentes.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A hora do chocolate


Todos os meses ia com o meu pai comprar a comida para casa, aquela que se podia guardar, como o arroz, o azeite, a massa e muito mais. Íamos só uma vez por mês, por isso o que se comprava tinha que dar para esse período de tempo, o que nem sempre acontecia porque a minha mãe fazia desvios.


O meu pai antes de sair de casa fazia uma lista do que era necessário comprar e fazia-a todos os meses, o que era desnecessário porque todos os meses comprava as mesmas coisas. Eu gostava de o acompanhar, era eu que ia buscar às prateleiras o que ele ia lendo da lista e colocava no carrinho de compras. Geralmente íamos ao supermercado Invictos que ficava no Carvalhido, era um supermercado grande onde se podia comprar de tudo, mas o meu pai só comprava o que era necessário, a única excepção era a compra de um chocolate pequeno de marca Regina que comíamos em casa no fim da arrumação das compras que tinha o seu ritual.


Quando chegávamos a casa, a primeira coisa que eu fazia era retirar todas as compras dos sacos de plástico e colocá-las juntinhas no chão da sala de jantar, o meu pai sentado numa cadeira ao lado da mesa de jantar pegava na lista de compras escrita por ele e no talão do supermercado e recitava: “cinco quilos de arroz e o quilo é a dez escudos”, eu verificava o preço do arroz e dizia-lhe se coincidia com o valor que me tinha dito e depois separava os cinco pacotes de quilo do arroz do conjunto total das compras, iniciando assim um outro grupo de compras; entretanto o meu pai assinalava com uma lapiseira a parcela do talão de compras com um vê de visto que correspondia a correcto, passando para a parcela seguinte “quatro garrafas de óleo fula e cada garrafa custa quinze escudos” e eu repetia a mesma operação de verificação de preço, comunicação e separação, e assim continuávamos até à verificação final do talão de compras, seguindo-se a arrumação das compras numa espécie de sótão que o meu pai construiu na casa de banho, rebaixando o tecto. Para lá chegar o meu pai necessitava de abrir a escada que estava encostada à parede do lado direito quem entrava na casa de banho, mesmo ao lado do bidé. Já subido na escada, o meu pai ia pedindo as compras “…agora os seis pacotes de massa… agora as garrafas de azeite…” que ia colocando muito ordenadamente na espécie de sótão. Eu ia-lhe chegando as compras pela ordem que ele me ia pedindo até ao último pacote.


Terminada a tarefa, era chegada a hora do chocolate, o meu pai pegava no pequeno chocolate de marca Regina e dividia-o meticulosamente em quatro partes iguais, uma para ele, outra para mim, outra para a minha mãe e outra para a minha irmã. Eu comia o meu pequeno pedaço em dentadinhas e lambidelas pequeninas para que durasse muito, às vezes ainda comia mais um bocadinho porque a minha mãe prescindia da sua parte dividindo-a em dois pedacinhos que distribuía por mim e pela minha irmã.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A minha avó


Quando nasci a minha avó paterna já tinha morrido, o meu pai tinha apenas catorze anos quando a mãe morreu de parto juntamente com o bebé. O meu pai era o segundo filho mais velho de seis e o mais próximo da mãe, era ele que a ajudava nas lides domésticas e com quem ela partilhava as suas inquietudes e a quem pedia conselhos, na ausência de um marido consumido pelo trabalho árduo de uma mina de volfrâmio e da lavra dos campos que nem sempre produziam o necessário para alimentar toda a família, por isso creio que terá sido muito difícil para ele aguentar aquela morte inesperada, tendo pouco tempo depois abandonado a casa paterna e partido para a grande cidade em busca de algo que preenchesse aquele espaço esvaziado que tanto doía, mal ele sabia que nunca iria ser capaz de o preencher, nem haveria mais ninguém que o fizesse da mesma forma que a minha avó.

terça-feira, 28 de julho de 2009

O saco amarelo


Enquanto não fui operada à garganta, quando tinha cinco anos, estava muitas vezes doente com febre e a minha mãe achava que eu tinha de permanecer na cama e não sair à rua. A única forma que ela tinha de conseguir que eu permanecesse na cama era deixar-me ir para a sua cama, que era a cama dos meus pais no quarto dos meus pais. Eu adorava estar naquela cama que era grande, alta e o colchão abanava, e naquele quarto que me era quase sempre vedado, excepto aos domingos quando ia ter com o meu pai à cama pela manhã quando acordava. Mas só a cama e o quarto não bastavam para me entreter durante todo o dia, a minha mãe dava-me então as fotografias da família que estavam todas dentro de um saco amarelo em cima do guarda-vestidos. Como eu gostava de as observar, passava horas a tirá-las e a metê-las no saco, a juntá-las umas com as outras como que a construir pequenas histórias com aquelas personagens que pouco ou nada conhecia. De tempos a tempos comia uma colherada de gema de ovo batida com açúcar que a minha mãe fazia sempre que eu tinha dores de garganta, e que não podia estar em cima da mesinha de cabeceira porque eu comia tudo de uma vez, por isso às vezes fazia de conta que me doía a garganta para que a minha mãe me desse mais uma colherzinha daquela mistura tão docinha. E quando me aborrecia de juntar e separar a família do saco amarelo, brincava com os livros e cadernos de quando a minha mãe andou na escola, não sabia ler mas gostava de ver as imagens. Quando a minha mãe ia a correr fazer algum recado e me deixava por breves instantes sozinha em casa, eu pulava rapidamente da cama e abria os gavetões da cómoda, só olhava, não mexia em nada para que a minha mãe não descobrisse que eu tinha andado em sítios proibidos.

domingo, 26 de julho de 2009

Queria desaparecer


Era habitual os meus pais estarem zangados na época do natal, não sei porque é que isso acontecia, mas era raro ocorrer o contrário. Apesar de não se falarem e dormirem em quartos separados, o que fazia com que eu e a minha irmã fossemos despejadas do nosso espaço para passar a ser ocupado pelo meu pai, os rituais natalícios tinham que ser cumpridos, exceptuando a troca de presentes que o meu pai nunca aprendeu a dar nem a receber, acabando por acontecer só entre mim, a minha irmã e a minha mãe às escondidas do meu pai para não termos que ouvir as suas terríveis críticas.


Na noite da consoada, às oito da noite, era obrigada a estar sentada à mesa da sala de jantar que se utilizava só em eventos especiais, em frente a uma televisão a preto e branco que tinha sido deslocada para aquele local por ser natal. A minha vontade era desaparecer, o silêncio e a agressividade que pairava naquela mesa era absolutamente insuportável, mas nada podia fazer, tinha que comer o bacalhau com batatas e as rabanadas. Na televisão viam-se famílias alegres a cantar canções de natal e lindos presentes a serem desembrulhados, na minha boca o bacalhau dava voltas e mais voltas e não o conseguia engolir, sentia um nó na garganta, fazia um esforço para que não me saltassem as lágrimas, mas tudo tinha de continuar.


Quando o meu pai dava por terminado o jantar, sentia um grande alívio, temporário é certo, mas ainda faltava um ano para que tudo se voltasse a repetir.

sábado, 25 de julho de 2009

As cantigas da minha mãe


Sentada no beiral da janela para ver as meninas a brincar na rua, aprendia as cantigas que a minha mãe cantava enquanto me dava a sopa que eu não queria comer “...indo eu, indo eu a caminho de viseu, encontrei o meu amor, ai jesus que lá vou eu...” , tentava enfiar-me mais uma colher de sopa na boca e saía mais uma cantiga “... sebastião come tudo tudo tudo, sebastião come tudo sem colher, sebastião é um grande barrigudo e depois dá pancada na mulher...”, eu acabava por engolir rapidamente a sopa para cantarolar com a minha mãe mais uma cantiga e outra e ali ficavamos a cantar mesmo depois da abominável sopa ter terminado.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Visita ao meu bisavô


Quando ia com o meu pai visitar o meu bisavô, que era o seu avô paterno, levava-lhe sempre uma prenda, uns maços de cigarros da sua marca preferida que o meu pai comprava e me dava, para eu lhe entregar logo que chegássemos a sua casa. Ele fumava uns cigarros pequeninos, que vinham dentro de uma embalagem também pequena feita com um papel branco onde estava escrito o nome da marca em letras vermelhas.


Eu gostava muito de ir visitar o meu bisavô porque a caminho de sua casa passávamos pelas ruas estreitas do centro da vila e pelo calvário, que era um penedo muito grande onde se encontravam três cruzes, um pelourinho e um púlpito, tudo em pedra, e que me deixava sempre curiosa, questionando o meu pai sobre o propósito desse sítio chamado calvário. O meu pai tentava responder à minha curiosidade contando-me histórias de romanos, cristãos, ladrões, perseguidos, que eu adorava ouvir.


O meu bisavô era um homem velhinho e pequenino que vivia numa casa de pedra rodeada por árvores, campos de cultivo e vinha. O seu dia-a-dia era passado nos campos e quase tudo o que comia vinha da sua terra cultivada. Quando a visita ao meu bisavô coincidia com as vindimas, ele levava-nos ao lagar que ficava no piso térreo da casa, para vermos as uvas que ele tinha colhido a fermentarem. Havia um cheiro adocicado no ar e se estivéssemos atentos conseguíamos ouvir um leve murmúrio produzido pela união das suas uvas. Dava-nos sempre a provar o líquido que se produzia na fermentação, era docinho e chamava-se vinho doce e só se podia provar um bocadinho porque fazia dores de barriga.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Desilusão


Vendedor de vinho, foi um dos muitos biscates que o meu pai arranjou extra trabalho principal. Da mesma forma que eu acompanhava o meu pai nas imensas actividades que ele desenvolvia, também o acompanhava nesta, tendo um papel muito importante, era a provadora de vinhos e a que seleccionava o vinho que o meu tinha que comprar.


O meu pai comprava o vinho em Arouca, a sua terra natal, e quem provava os vinhos em primeiro lugar era ele, depois passava-me a mim a caneca de bordo largo para que eu também provasse, no final das provas perguntava-me qual o vinho que eu tinha gostado mais, acabando por comprar aquele que eu tinha escolhido. Esta atitude do meu pai deixava-me muito orgulhosa e muito feliz.


Após a selecção do vinho, eu ia à carrinha quatro ele de cor creme buscar os garrafões para serem enchidos e de seguida, já cheios, voltavam novamente para a carrinha, onde eram devidamente acondicionados para não haver qualquer percalço nas curvas apertadas do caminho. Quando chegávamos a casa, eu voltava a retirar os garrafões cheios e pesados da carrinha e transportava-os para casa, onde o meu pai fazia uma lista das entregas que eu tinha que efectuar no dia seguinte pela tarde depois de regressar da escola, dois garrafões para o senhor Manuel, um garrafão para a dona Tininha, quatro garrafões para o senhor Mário, e a lista continuava infinitamente.


No negócio do vinho do meu pai, eu para além de ser provadora também era distribuidora, e se por um lado a satisfação do meu papel importante de provadora no início desta actividade, me dava alento para carregar durante horas os pesados garrafões, com o passar do tempo a tarefa tornou-se difícil e aberrante, mas não estava autorizada a abandoná-la. O negócio durou algum tempo, já não me recordo quanto, mas o suficiente para começar a sentir-me desiludida com o meu pai, afinal não era sempre um homem bom para mim, também era mau.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A Miquinhas do Covelo


Quando os gritos, os choros, os amuos e os argumentos não funcionavam com o meu pai, a minha mãe recorria a estratégias mais subtis e secretas, sendo habitual comentar entre dentes “hei-de te vergar… se não vais a bem vais a mal”, num tom de voz raivoso e ao mesmo tempo desiludido, eu ouvia-a e não percebia o que queria dizer, a única coisa que eu notava era a ausência das discussões entre os meus pais e as saídas para sítios estranhos da minha mãe.


Como era criança acompanhava sempre a minha mãe em todas as suas saídas e quando ela tinha de “vergar” o meu pai íamos a sítios diferentes dos habituais. Assim que o meu pai saía de casa pela manhã para ir trabalhar, a minha mãe vestia-me rapidamente, pegava no saco onde levava umas cuecas e uma camisola interior do meu pai e corríamos todo o caminho até casa da Miquinhas que morava no Covelo e era conhecida pela Miquinhas do Covelo, para quando lá chegássemos não termos muita gente à nossa frente. As pessoas esperavam em fila à porta da casa da Miquinhas, que ficava num corredor com outras portas que pertenciam a outras casas. A minha mãe perguntava quem tinha sido a última pessoa a chegar e colocava-se a seguir na fila e ali ficávamos também à espera. Nesta fila habitualmente reinava o silêncio, de quando em vez ouviam-se sussurros e suspiros de impaciência, e havia uma regra que não se podia nunca transgredir sob pena de ser expulso da fila, que consistia na proibição de cruzar braços ou pernas durante o tempo de espera porque tal acto contribuía para que a Miquinhas não fizesse o serviço com a agilidade desejada e por consequência toda a gente que estava na fila teria que esperar mais tempo para ser atendida.

Chegada a vez da minha mãe, entravamos na casa da Miquinhas, que era uma senhora muito velhinha que estava sentada numa cama com um crucifixo numa mão e rodeada por santos e velas. A minha mãe expunha-lhe a sua aflição, que eram queixas do meu pai e colocava a roupa interior dele à sua frente. A Miquinhas ia ouvindo meio ausente e de um momento para o outro iniciava uma ladainha imperceptível enquanto agitava o crucifixo fazendo o sinal da cruz repetidamente por cima da roupa do meu pai, após uns minutos, de olhos fechados e com uma voz transformada, informava a minha mãe do que se passava com o meu pai e o que ela tinha de fazer para alterar a situação. A minha mãe ouvia tudo muito atentamente, no final agradecia e perguntava quanto tinha de pagar pelo serviço que a Miquinhas tinha prestado, mas esta nunca pedia um valor, dizia que lhe desse o que quisesse e se não tivesse que não desse.