domingo, 4 de outubro de 2009

As pastilhas dos nervos


Saía da catequese quando vejo o meu pai dentro da carrinha quatro L de cor creme a acenar-me para que eu entrasse rapidamente. Estranhei o seu aparecimento, ainda por cima de carro, afinal de contas o meu pai só andava de carro ao domingo da parte da tarde quando íamos dar um passeio e nunca de manhã. Assim que entrei na carrinha, ele disse-me que íamos ao hospital porque a minha irmã tinha comido as pastilhas dos nervos. Não percebi muito bem o que isso significava, mas a minha mãe que ia sentada no banco da frente com a minha irmã ao colo estava com cara de aflição e tentava a todo o custo segurar na minha irmã que se agarrava ao volante, puxava a alavanca das mudanças e esforçava-se por abrir a porta do carro em andamento. Quando chegamos ao hospital a minha irmã foi entregue aos médicos que a levaram rapidamente para uma sala onde não podíamos entrar. Enquanto esperávamos pela devolução da minha irmã, a minha mãe chorava, o meu pai deambulava mudo pela sala de espera e eu muito quieta e calada observava-os.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A bicicleta


Pedi ao meu pai uma bicicleta, ele disse-me que se passasse de classe me dava uma. Passei para a classe seguinte e ele não me deu a bicicleta. Perguntei-lhe pela bicicleta e ele respondeu que eu tinha que crescer um pouco mais e que me dava a bicicleta quando passasse para a quarta classe. Passei para a quarta classe e ele não me deu a bicicleta. Perguntei-lhe pela bicicleta e ele disse-me que quando fizesse o exame da quarta classe me dava a bicicleta. Fiz o exame da quarta classe e ele não me deu a bicicleta. Não voltei a perguntar pela bicicleta e ele nunca me deu a bicicleta.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A olhar o infinito


Tinha combinado ir passar o dia ao Mindelo a casa de uma amiga. Apesar de ainda estarmos na primavera os dias já eram quentes, passaríamos o dia na piscina. Encontro marcado com a Paula no apeadeiro da avenida da França às onze da manhã. Precisava de algum dinheiro para as deslocações e talvez ir ao café, portanto, decidi primeiro passar por casa da minha madrinha a fazer-lhe uma visita já que a sua casa não ficava distante da avenida da França e também porque sempre que a visitava ela dava-me algum dinheiro ficando desta forma resolvido o problema do dinheiro.


Assim que cheguei a casa da Bibi, reparei que algo não estava bem, encontrei-a apática, sentada numa cadeira a olhar o infinito, não me falava e praticamente não respondia às minhas perguntas e não me disse para lhe chegar o porta-moedas como era habitual. O tempo passava, tinha que ir ter com a Paula ao apeadeiro para apanharmos o comboio para o Mindelo, mas ao mesmo tempo achava que tinha que fazer qualquer coisa pela Bibi e a única coisa que poderia fazer era ficar com ela e telefonar aos meus pais para que a fossem buscar para a levar ao médico. Não fui capaz de rejeitar a ida ao Mindelo, à hora marcada estava no apeadeiro e passei o resto do dia na piscina sem que a imagem da Bibi a olhar o infinito me saísse da mente.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Estão mal lavadas!


O mais terrível do negócio do vinho era quando o meu pai decidia engarrafá-lo. Eram necessárias muitas garrafas de vidro que o meu pai comprava no farrapeiro, garrafas essas que estavam muito sujas, cabendo-me a mim a tarefa da lavagem. A melhor forma para retirar toda a sujidade daquelas garrafas imundas era deixá-las mergulhadas em água durante umas horas para ir amolecendo tudo o que se encontrava encrostado por dentro e por fora, e como vivíamos num apartamento eu utilizava o recipiente maior que lá existia para pôr de molho o maior número de garrafas, que era a banheira, enchendo-a de água com detergente. Mas as horas de molho não eram suficientes para retirar toda a sujidade, sobretudo a sujidade do interior da garrafa, por isso tinha que utilizar areia grossa que metia para dentro da garrafa junto com água agitando com toda a força que tinha de forma a que o sarro de outros vinhos que ali viveram desaparecesse, não esquecendo os rótulos e a cola do exterior. Era uma tarefa desesperante, a minha mãe e a minha irmã também ajudavam, mas o pior era quando o meu pai chegava a casa e ia inspeccionar as garrafas, uma por uma, e alto e bom som pronunciava o veredicto: “estão mal lavadas, tem que se voltar a lavar”.

domingo, 27 de setembro de 2009

Vou apanhar grilos


Quando estava na aldeia gostava de sentir o entardecer, sentava-me no esteio de granito em frente a casa e ali ficava a ver o sol a esconder-se nas montanhas do fundo. O ar abafado do fim de tarde carregava o cheiro da caruma queimada na lareira da minha avó e aos poucos o chilrear dos pássaros dava lugar ao cântico repetitivo dos grilos que iniciavam o seu reportório de toda uma noite.


O meu tio Adolfo perguntava-me se queria ir apanhar grilos, meio indiferente acabava por o acompanhar. Escolhia uma palhinha no meio de muitas e silenciosamente escutava o cri-cri dos grilos movendo-me muito devagar até ao buraquinho de onde saía a cantoria, depois de observar atentamente a casa do bicho cantor enfiava muito ao de leve a palhinha que fazia com que o grilo saísse. Avisava o meu tio da aparição do pequeno cantor, que rapidamente se prontificava a apanhá-lo e a colocá-lo numa pequena gaiola onde já estava colocada uma folha de alface que lhe serviria de manjar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Óleo de fígado de bacalhau


Tinha que passar todos os anos pelo martírio de engolir a colher do óleo de fígado de bacalhau. A minha mãe preparava-me com antecedência, uns dias antes da toma dizia-me que ia comprar o “remédio” e eu protestava dizendo que não queria, que não precisava, que não gostava, que não aguentava o cheiro, que me dava vómitos, mas nenhum destes argumentos a demoviam do seu objectivo. Ela tentava convencer-me que não custava nada tomar uma pequena colher daquele óleo que tão bem fazia à saúde e eu contestava que não queria saber do que fazia o óleo e que não tomava. A minha mãe olhava para mim com ar de quem ignora completamente qualquer argumento e insistia que só me fazia bem. Até que chegava o dia em que a minha mãe decidia dar-me o “remédio”, dizia-me para apertar o nariz e abrir a boca onde enfiava a colher do óleo de fígado de bacalhau, logo de seguida eu comia uma laranja para tirar o sabor do óleo que dificilmente desaparecia.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Passeios de domingo à tarde


Ao domingo depois de almoço tínhamos todos que ir passear. O meu pai dizia à minha mãe para preparar qualquer coisa para o lanche porque íamos dar uma volta. Todos enfiados no carro e por uma rua ou por outra a volta ia dar sempre ao mesmo destino, o mar. O local em que parávamos não variava muito, era algures entre a foz do Porto e Matosinhos. Aí chegados, o meu pai ligava o rádio sintonizado no relato de futebol, inclinava para trás o encosto do seu banco que fazia com que eu e a minha irmã tivéssemos que estar mais juntas e passados alguns minutos adormecia embalado pelo futebol que não lhe interessava e pelo som da ondas que iam e vinham. A minha mãe pegava no seu croché que fazia e desfazia e ali se quedava ausente. A minha irmã brincava com o que podia e muitas vezes também adormecia. Eu observava resignada a minha família e tentava imaginá-la diferente, limpava o ressoado dos vidros do carro e mirava o mar. Com o tempo comecei a gostar dos passeios de domingo à tarde, das horas passadas em frente ao mar, onde a minha família se ausentava e eu simplesmente contemplava.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Lesmas negras


Quando passava pelas bermas dos carreiros da rega fazia-o sempre um pouco sobressaltada porque tinha medo de encontrar as lesmas negras que por vezes apareciam no meio das ervas que despontavam no caminho. Mesmo sabendo que elas se moviam muito lentamente, quando me confrontava com uma tinha sempre a mesma reacção, primeiro parava a minha marcha depois arregalava muito os olhos para a observar bem enquanto aumentava a tensão de todo o meu corpo e finalmente desatava a correr o mais que podia sem olhar para trás. Durante algum tempo não voltava a passar por aquele caminho.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A descoberta das sandes americanas


Chegamos finalmente ao Algarve depois de longas horas de carro pela estrada nacional. O meu pai parou o carro junto a um pequeno muro e saímos todos para esticar as pernas e respirar aquele estranho ar morno que nos abraçava suavemente. Abeirei-me do muro e o que vi deixou-me deslumbrada, lá em baixo estava uma pequena praia de areia dourada com o mar de uma cor azul que eu nunca tinha visto, que mais adiante passava a azul esverdeado, sem ondas e com enormes rochas de formas engraçadas que formavam pequenas ilhas.


Íamos para a praia de manhã cedo, a minha mãe levava o almoço que tinha preparado previamente e aí passávamos quase todo o dia, ora ao sol ora à sombra das falésias que tinham entradas para pequenas grutas. Brincávamos na água e com a fina areia fazíamos construções estranhas. O meu pai gostava de observar os estrangeiros porque eram pessoas bastante diferentes de nós, desde a cor dos cabelos às roupas que usavam e sobretudo o que comiam, que foi o que mais curiosidade lhe despertou, tendo passado a dedicar-lhes a máxima atenção quando estes pegavam nos seus embrulhos de papel de estanho. Aos poucos foi descobrindo que dentro daqueles embrulhos havia sandes feitas com pão, alface, tomate, milho, maionese, ovo e por vezes também atum. O meu pai ficou radiante com a descoberta, pareceu-lhe uma óptima invenção pois havia imensos ingredientes saudáveis numa única sandes. A partir daquele momento também passamos a comer sandes embrulhadas em papel de estanho.

domingo, 30 de agosto de 2009

Os aviões


Ia com o meu pai ao aeroporto ver os aviões, subíamos a escadaria que dava acesso à varanda que ficava virada para a pista e aí ficávamos a observar os aviões que chegavam e partiam, as manobras que faziam, as escadas que lhes punham por onde saiam ou entravam as pessoas. A varanda estava sempre cheia de gente, alguns chorosos e outros nervosos, muitos atiravam o último beijo de muitos anos de separação e ficavam ali petrificados até o avião desaparecer entre as nuvens. Todo aquele reboliço assustava-me, os motores faziam muito barulho e estremecer o chão, mas eu com as minhas mãos a tapar os ouvidos, meio encolhida e encostada ao meu pai via aquelas máquinas ganharem lanço na pista e erguerem-se nos céus. Ouvia atentamente o meu pai explicar que os aviões transportavam as pessoas para locais muito distantes onde não se podia ir de carro nem de comboio.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A máquina de costura Singer


O meu pai chegou a casa com um objecto de plástico duro e cor bege, parecia uma pequena mala de viagem, era muito pesado e eu não conseguia adivinhar o que era. Colocou-o em cima da mesa da sala de jantar e percebendo a minha curiosidade, pressionou um pequeno botão que permitiu abri-lo mostrando o seu conteúdo. Era uma máquina de costura singer eléctrica e portátil. Logo de seguida determinou qual o sítio da casa onde ficaria arrumada, que era ao lado do móvel da sala de jantar encostada à parede por baixo da janela.


Fui crescendo e já não gostava das roupas confeccionadas pela minha família, queria as roupas bonitas que via nas montras das lojas e parecidas com aquelas que as minhas amigas usavam, mas eram caras e como eu achava que o meu pai não me daria dinheiro para as comprar decidi aventurar-me nas lides da costura, com o manual de instruções da máquina de costura singer e com o que aprendi em todos os anos que observei o meu pai a costurar, fui construindo o melhor que consegui o biquini às flores, as calças azulão, o macacão de cetim preto, o vestido cor-de-rosa, as saias floridas e até os sacos à tiracolo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O rapaz espécie de príncipe


Todos os passeios da minha mãe eram feitos na companhia dos tios que a criaram, e como a minha mãe era uma rapariga alegre tudo o que fosse festa e romaria era do seu agrado, como os bailes de Carnaval no Palácio de Cristal onde uma vez um simpático e elegante rapaz se aproximou dela e dos tios pedindo autorização para lhes oferecer um picolé, cujo consentimento foi dado com satisfação, tal era a delicadeza do rapaz. Passaram toda a noite na companhia do amável desconhecido que dançou pela madrugada fora com a minha mãe e que no final se ofereceu para os levar a casa no seu espectacular automóvel confessando a intenção de novo encontro nos dias seguintes. A minha mãe sentia-se uma cinderela assustada, achava que não servia para o rapaz porque não pertencia à sua condição e apesar da insistência dos tios decidiu não voltar a encontrar-se com aquele rapaz espécie de príncipe. Como não atendia o telefone, o rapaz decidiu montar guarda na porta de sua casa, obrigando a minha mãe a usar os seus dotes de disfarce para que pudesse passar por ele sem ser reconhecida, o que aconteceu diariamente durante uma semana, a minha mãe passava rente aquela espécie de príncipe envergando luto carregado com os olhos postos no chão como se a luz do dia lhe fosse insuportável. Ao fim daquela semana a minha mãe não voltou a ver o rapaz espécie de príncipe mas guardou sempre dentro de si aquele possível caso de amor.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Tudo Bom


Em casa da Bibi havia sempre sugus com sabor a morango, ananás e laranja, chupa-chupas com formas variadas e cobertura de baunilha e chocolates embrulhados em papel amarelo brilhante a imitarem moedas de ouro antigas e ainda pequenos guarda-chuvas de chocolate compacto que eu tanto adorava.


Assim que aí chegava a primeira coisa que eu fazia era ir directa à cristaleira, onde a Bibi guardava toda a doçaria, e verificar se havia tudo aquilo que eu tinha idealizado a caminho da sua casa, e se por acaso faltasse um doce que me apetecia, pedia à Bibi uma ou duas moedas para o ir comprar ao Tudo Bom, que era uma loja muito pequenina que ficava numa rua paralela à rua onde morava a Bibi, mesmo em frente à linha do comboio e que eu considerava um paraíso. No Tudo Bom havia de tudo, rebuçados de todos os sabores, caramelos, chupas, chocolates, pirolitos, sugus, estando tudo devidamente arrumado nuns grandes frascos transparentes.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A lavagem do automóvel


Lá em casa éramos quatro humanos e um automóvel que era tratado quase como humano, tal era o cuidado que o meu pai tinha com ele. Durante a semana estava parado no mesmo lugar com a sua capota cinzenta que o protegia do calor, da chuva e do pó; ao sábado e ao domingo eram os dias das voltinhas até à foz ou à aldeia. As segundas-feiras era o dia do banho e a pessoa responsável por essa tarefa era eu. O ritual era sempre o mesmo e não havia margem para erros. Primeiro sacudia os tapetes, de seguida limpava os estofos, volante, e tudo o que fosse de plástico, couro ou imitação de couro e estivesse no seu interior com um pano húmido não esquecendo os vidros e o espelho retrovisor com detergente limpa-vidros e jornal para que não ficasse qualquer dedada ou embaciado. Com o interior do carro perfeitamente limpo, seguia-se a parte exterior, cuja limpeza inicialmente consistia numas baldadas de água para retirar poeiras mais grossas que pudessem riscar a pintura, passando para o ensaboamento de toda a chaparia e vidros terminando nas jantes e face exterior dos pneumáticos, a secagem com pano fino e devidamente limpo era a parte final de todo este processo. Com o automóvel a brilhar era chegada a hora da colocação da capota cinzenta que não era feita de qualquer maneira, posta sempre da frente do carro para trás e depois para os lados, ajustando bem os elásticos para que todo o carro ficasse bem protegido. No fim desta tarefa eu suspirava de alívio, ainda tinha uma semana pela frente até à próxima lavagem.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A primeira palavra


Eu era uma bebé tranquila, chorava pouco, contemplava o mundo que me rodeava com curiosidade e quando balbuciei a primeira palavra era ainda tão pequenina que os meus pais ficaram espantados, o que já não aconteceu com os meus primeiros passos que tardaram em serem dados com segurança e firmeza. A palavra mãe foi das primeiras que aprendi, dava-me muito jeito porque sempre que a mencionava a minha mãe atendia-me sorrindo e perguntando o que queria; outra das palavras iniciais foi zé que repetia constantemente na presença do meu pai, mas que ele teimava em contrariar fazendo com que eu aprendesse a substituir o zé por pai o que para mim não deveria fazer sentido porque ele era o zé da minha mãe e era também o meu zé. E fui aprendendo outras palavras e a dar nome às coisas, mas o meu pai continuava a ser zé, apesar da sua tristeza, comentava amuado com a minha mãe “ela a ti chama-te mãe e a mim chama-me zé”.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O meu tio e os peixes


Entre as muitas fotografias do saco amarelo que me punham a sonhar, a do meu tio Alberto com os peixes transportava-me para paragens longínquas. O meu pai tinha-me dito que ele tinha ido para África, para a guerra, tinha ido num barco muito grande que demorou várias semanas a lá chegar. Eu até conhecia bem o barco, porque no saco amarelo havia um postal com um belíssimo navio no meio de umas ondas muito azuis que o tio Alberto nos enviou, onde dava conta de que estava bem e com muitas saudades. Em África permaneceu durante muito tempo e de vez em quando mandava-nos fotografias suas em que estava sempre muito feliz, acho que o fazia para atenuar o pavor daqueles que o amavam.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A prima Lena


A Lena era prima do meu pai e minha prima em segundo grau, morava com a tia dela que também era tia do meu pai e minha tia em segundo grau e que eu tratava por tia da Senhora da Hora porque vivia nesta localidade. Apesar da Lena ser alguns anos mais velha do que eu, era uma rapariga pequenina que tinha um olhar brincalhão e um sorriso permanente num rosto sardento. O que eu mais gostava quando íamos visitar a tia da Senhora da Hora, para além da broa com manteiga que comia sempre, era de me enfiar no quarto da minha prima Lena a ouvir as suas histórias de fadas, príncipes, lobos maus e tudo o que ela inventasse. Ela contava todas aquelas histórias com tal convicção que muitas vezes eu não sabia se ela estava a falar verdade ou a brincar e por mais que as ouvisse nunca me aborreciam, porque ela as adaptava fazendo com que parecessem sempre diferentes e sempre maravilhosamente fantásticas.

domingo, 9 de agosto de 2009

Jogo sem bola


No jogo sem bola não havia bolas, éramos todos bolas. Podíamos ser seis, dez e até mesmo vinte bolas. Não éramos chutados por ninguém, tínhamos pernas, braços, estratégia e capacidade de decisão para nos esquivarmos da bola que nos fazia frente e passarmos pela baliza da outra equipa e assim marcar um ponto como se fosse um golo, mas se a caminho da baliza fossemos travados pela bola da outra equipa éramos eliminados, ganhando o jogo a equipa que conseguisse eliminar todas as bolas da outra equipa. Este jogo era um dos meus favoritos porque eu era matreira e corria muito, conseguindo marcar muitos pontos e ficar até ao fim do jogo.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Liberdade e comando


O meu pai fez um banquinho de madeira que acoplou à parte da frente do assento da sua vespa azul clarinho para que eu viajasse com ele de forma mais confortável e segura. Nas nossas viagens curtas e longas eu ia sentada no banquinho de madeira com os pés apoiados no estrado da vespa e as mãos bem firmes no guiador, estando o meu pai sentado mesmo atrás de mim envolvendo-me com os seus braços. Eu adorava andar na vespa com o meu pai, com o vento a dar-me na cara e aquela sensação de liberdade e comando.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Moscas


Aquelas terríveis moscas, as da aldeia do meu pai, aquelas que picam o gado que está no andar térreo da casa e quando se passeiam pelo andar superior como não têm vacas nem porcos para atacar, mordem as nossas pernas, os nossos braços e tudo aquilo que puderem, não nos restando outro remédio senão agitarmos todo o nosso corpo como se estivessemos constantemente com convulsões, sendo muitas vezes necessário recorrer a palmadas porque a agitação nem sempre as assusta. Um dos meus passatempos preferidos nas tardes dos domingos escaldantes de verão, era observar as moscas a tentarem devorar o meu pai e os meus tios que tentavam dormir a sesta após o almoço familiar. Chegava a contar mais de cinquenta moscas pousadas nos seus corpos suados, e eles completamente desmaiados de sono, lutavam com estes inimigos invencíveis que mesmo por cima de lençóis brancos insistiam no ataque.