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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O sapatinho vermelho


Quando entrei no ciclo preparatório, ocorreram algumas mudanças na minha vida, tais como, começar a andar de transportes públicos sózinha e receber uma semanada, que me deixaram com a sensação de ter crescido. O meu pai deu-me um porta-moedas que tinha a forma de um sapatinho e era feito de um plástico vermelho brilhante e disse-me que era para eu guardar o dinheiro que me dava, que não era mais de vinte e cinco tostões por semana e que eu guardava cuidadosamente dentro do sapatinho. O meu pai aconselhava-me a poupar o dinheiro e a não gastá-lo mal, mas eu não sabia o que é que ele queria dizer com gastar mal, pois a única coisa que eu comprava com aquele dinheiro era uns rebuçados em forma de limõezinhos de cor esverdeada com sabor a limão, uns chupas e umas chicletes Pirata, num quiosque que ficava no passeio do lado direito da rua dos bragas quando se seguia em direcção à rua de cedofeita.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A olhar o infinito


Tinha combinado ir passar o dia ao Mindelo a casa de uma amiga. Apesar de ainda estarmos na primavera os dias já eram quentes, passaríamos o dia na piscina. Encontro marcado com a Paula no apeadeiro da avenida da França às onze da manhã. Precisava de algum dinheiro para as deslocações e talvez ir ao café, portanto, decidi primeiro passar por casa da minha madrinha a fazer-lhe uma visita já que a sua casa não ficava distante da avenida da França e também porque sempre que a visitava ela dava-me algum dinheiro ficando desta forma resolvido o problema do dinheiro.


Assim que cheguei a casa da Bibi, reparei que algo não estava bem, encontrei-a apática, sentada numa cadeira a olhar o infinito, não me falava e praticamente não respondia às minhas perguntas e não me disse para lhe chegar o porta-moedas como era habitual. O tempo passava, tinha que ir ter com a Paula ao apeadeiro para apanharmos o comboio para o Mindelo, mas ao mesmo tempo achava que tinha que fazer qualquer coisa pela Bibi e a única coisa que poderia fazer era ficar com ela e telefonar aos meus pais para que a fossem buscar para a levar ao médico. Não fui capaz de rejeitar a ida ao Mindelo, à hora marcada estava no apeadeiro e passei o resto do dia na piscina sem que a imagem da Bibi a olhar o infinito me saísse da mente.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A contar notas


Como o meu pai sempre gostou muito de dinheiro acho que foi procurando trabalhos que o levassem a estar cada vez mais próximo dele, como o de cobrador do banco para onde foi trabalhar. Ia diariamente na sua vespa azul clara bater de porta em porta para cobrar as letras dos empréstimos aos clientes do banco e todo o dinheiro que recebia era metido numa grande pasta de couro castanho-escuro.


Depois do almoço, o meu pai, tinha por tarefa a contagem do dinheiro recebido durante toda a manhã, eu sentava-me à sua frente e em silêncio observava-o a juntar as notas com o mesmo valor em montinhos, desfeitas de vincos, bem esticadas e todas viradas para o mesmo lado, depois pegava num montinho e contava meticulosamente uma nota a seguir à outra, anotando o valor numa folha branca, de seguida pegava noutro montinho de notas de valor diferente do anterior e repetia a mesma operação, fazia isto até ter contado todos os montinhos anteriormente feitos, no final fazia a soma dos valores que foi anotando na folha branca e se por acaso a soma não desse certa com outra soma que tinha feito, tinha que repetir todo o processo. E fazia isto, uma, duas, três vezes e as vezes que fossem necessárias até não haver diferença. Embora esta tarefa pudesse ser aborrecida, eu acho que o meu pai gostava de a fazer, por vezes naquelas contagens repetitivas apercebia-me da imensa satisfação que sentia ao tocar em todas aquelas notas, talvez imaginando que fossem suas, e da delicadeza que empregava quando as guardava.