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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Estão mal lavadas!


O mais terrível do negócio do vinho era quando o meu pai decidia engarrafá-lo. Eram necessárias muitas garrafas de vidro que o meu pai comprava no farrapeiro, garrafas essas que estavam muito sujas, cabendo-me a mim a tarefa da lavagem. A melhor forma para retirar toda a sujidade daquelas garrafas imundas era deixá-las mergulhadas em água durante umas horas para ir amolecendo tudo o que se encontrava encrostado por dentro e por fora, e como vivíamos num apartamento eu utilizava o recipiente maior que lá existia para pôr de molho o maior número de garrafas, que era a banheira, enchendo-a de água com detergente. Mas as horas de molho não eram suficientes para retirar toda a sujidade, sobretudo a sujidade do interior da garrafa, por isso tinha que utilizar areia grossa que metia para dentro da garrafa junto com água agitando com toda a força que tinha de forma a que o sarro de outros vinhos que ali viveram desaparecesse, não esquecendo os rótulos e a cola do exterior. Era uma tarefa desesperante, a minha mãe e a minha irmã também ajudavam, mas o pior era quando o meu pai chegava a casa e ia inspeccionar as garrafas, uma por uma, e alto e bom som pronunciava o veredicto: “estão mal lavadas, tem que se voltar a lavar”.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Visita ao meu bisavô


Quando ia com o meu pai visitar o meu bisavô, que era o seu avô paterno, levava-lhe sempre uma prenda, uns maços de cigarros da sua marca preferida que o meu pai comprava e me dava, para eu lhe entregar logo que chegássemos a sua casa. Ele fumava uns cigarros pequeninos, que vinham dentro de uma embalagem também pequena feita com um papel branco onde estava escrito o nome da marca em letras vermelhas.


Eu gostava muito de ir visitar o meu bisavô porque a caminho de sua casa passávamos pelas ruas estreitas do centro da vila e pelo calvário, que era um penedo muito grande onde se encontravam três cruzes, um pelourinho e um púlpito, tudo em pedra, e que me deixava sempre curiosa, questionando o meu pai sobre o propósito desse sítio chamado calvário. O meu pai tentava responder à minha curiosidade contando-me histórias de romanos, cristãos, ladrões, perseguidos, que eu adorava ouvir.


O meu bisavô era um homem velhinho e pequenino que vivia numa casa de pedra rodeada por árvores, campos de cultivo e vinha. O seu dia-a-dia era passado nos campos e quase tudo o que comia vinha da sua terra cultivada. Quando a visita ao meu bisavô coincidia com as vindimas, ele levava-nos ao lagar que ficava no piso térreo da casa, para vermos as uvas que ele tinha colhido a fermentarem. Havia um cheiro adocicado no ar e se estivéssemos atentos conseguíamos ouvir um leve murmúrio produzido pela união das suas uvas. Dava-nos sempre a provar o líquido que se produzia na fermentação, era docinho e chamava-se vinho doce e só se podia provar um bocadinho porque fazia dores de barriga.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Desilusão


Vendedor de vinho, foi um dos muitos biscates que o meu pai arranjou extra trabalho principal. Da mesma forma que eu acompanhava o meu pai nas imensas actividades que ele desenvolvia, também o acompanhava nesta, tendo um papel muito importante, era a provadora de vinhos e a que seleccionava o vinho que o meu tinha que comprar.


O meu pai comprava o vinho em Arouca, a sua terra natal, e quem provava os vinhos em primeiro lugar era ele, depois passava-me a mim a caneca de bordo largo para que eu também provasse, no final das provas perguntava-me qual o vinho que eu tinha gostado mais, acabando por comprar aquele que eu tinha escolhido. Esta atitude do meu pai deixava-me muito orgulhosa e muito feliz.


Após a selecção do vinho, eu ia à carrinha quatro ele de cor creme buscar os garrafões para serem enchidos e de seguida, já cheios, voltavam novamente para a carrinha, onde eram devidamente acondicionados para não haver qualquer percalço nas curvas apertadas do caminho. Quando chegávamos a casa, eu voltava a retirar os garrafões cheios e pesados da carrinha e transportava-os para casa, onde o meu pai fazia uma lista das entregas que eu tinha que efectuar no dia seguinte pela tarde depois de regressar da escola, dois garrafões para o senhor Manuel, um garrafão para a dona Tininha, quatro garrafões para o senhor Mário, e a lista continuava infinitamente.


No negócio do vinho do meu pai, eu para além de ser provadora também era distribuidora, e se por um lado a satisfação do meu papel importante de provadora no início desta actividade, me dava alento para carregar durante horas os pesados garrafões, com o passar do tempo a tarefa tornou-se difícil e aberrante, mas não estava autorizada a abandoná-la. O negócio durou algum tempo, já não me recordo quanto, mas o suficiente para começar a sentir-me desiludida com o meu pai, afinal não era sempre um homem bom para mim, também era mau.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Nasci a pedir vinho


Quando a minha mãe estava grávida de mim desejou beber uma garrafa de vinho inteira, mas tinha que ser bebido pela garrafa e de uma só vez, sem paragens. O desejo tinha estas características, contudo não o fez porque tinha vergonha de ficar bêbada, mas ao mesmo tempo também estava preocupada em não cumprir o desejo porque eu poderia nascer “ougada” e com o cabelo em pé, o que efectivamente aconteceu, segundo versões familiares.


Desde tenra idade que sempre que apanhava um copo de vinho o bebia, toda a gente tinha que andar com mil cuidados para que não me fosse parar às mãos vinho, era habitual nas reuniões de família à mesa eu sorrateiramente pegar nos copos e beber o restinho de vinho que ficava no fundo. Era tamanha a minha vontade e sofreguidão pelo vinho que os meus pais já não sabiam o que haviam de fazer até que a minha avó propôs que eu comesse um pão de milho especial que se fazia para dar a “ougados”. Esse pão era confeccionado pela minha avó que à sua feitura acrescentava umas rezas indo a cozer no forno de lenha e depois eu tinha que o comer atrás da porta. Eu adorava estes pãezinhos de milho, comi muitos atrás de todas as portas porque não havia maneira de me passar o gostinho pelo vinho, e a verdade é que nunca passou.