Mostrar mensagens com a etiqueta Avô. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Avô. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 14 de julho de 2009

A casa das monjas


A casa do meu avô situava-se próxima do centro da vila, por isso os passeios a pé até ao mosteiro de Arouca eram diários. O mosteiro era um dos meus locais preferidos, não só porque se localizava no centro da vila que era onde tudo acontecia, mas porque o meu tio Manel era o cicerone do museu e igreja e em criança era habitual acompanhá-lo nas explicações que ia dando aos grupos de visitantes, que eu seguia a alguma distância, arrastando-me devagarinho de sala em sala observando mais uma vez tudo o que já tinha observado tantas e tantas vezes e escutando as suas histórias sempre iguais que me faziam imaginar as monjas nos seus passeios matinais pelo claustro ou nas suas preces infinitas. Uma das coisas que mais me impressionava na igreja do mosteiro era o caixão em vidro onde está exposto o corpo incorrupto da rainha santa Mafalda, que pela lógica já não devia existir mas que insistia em manter-se inteiro.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Carro de bois


Num dos palheiros estava guardado o carro de bois, que o meu avô usava somente quando ia à quinta da Mata levar ou buscar coisas grandes e pesadas. O carro ligava-se à canga que era uma tábua grande que encaixava na cabeça dos bois, que no caso do meu avô eram vacas, que puxavam o carro que se movia lentamente pelas calçadas estreitas, gemendo baixinho.


Eu seguia de pé em cima do carro, segura à grade para me equilibrar dos solavancos imprevistos e o meu avô caminhava ao lado das vacas, orientando-as no seu trajecto, mas eu ignorava-o, esticando-me o mais possível na minha posição que sentia ser de chefia, dava umas palmadinhas ao de leve no dorso das vacas, imitava os sons que o meu avô fazia para incitar o andamento dos animais e sorria de orgulho a todos que por mim passassem.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Quinta da Mata


Cuidado com esse degrau… está um pouco desfeito, é de terra, tem que se arranjar. Corre uma brisa suave de fim de tarde e ouve-se um jorro de água que cai no tanque grande onde antes a minha bisavó lavava a roupa, água fresca e límpida que vem de uma nascente na montanha, que acredito seja ali próxima, mas quem sabe onde fica, o que se sabe é que é boa água, da que se bebe sem qualquer cautela, é pura e escorre pelo carreiro que a leva até aos pequenos campos que se distribuem por socalcos, que são as leiras como lhe chamava o meu avô aos pequenos campos de cultivo onde tudo se semeava e tudo nascia, desde batatas, milho, couves, cebolas, grelos, e muito mais, as separações destes pequenos campos era feita com videiras donde nasciam umas uvas negras pequeninas com as quais o meu avô fazia vinho, era o vinho da Mata. Mais acima das leiras cultivadas encontrava-se o monte, onde se encontravam muitas árvores de grandezas variadas, para além de algumas darem frutos tão abundantes em número como no seu tamanho que exigiam que fossem devorados.

sábado, 2 de maio de 2009

Arouca # 3


A seguir à ramada do lado direito havia um caminho de terra com umas pequenas escadas feitas na terra, que o meu avô arranjava sempre que os degraus deixavam de estar bem presentes. Era um caminho um pouco íngreme, que vinha dar a um outro caminho estreito que acompanhava o carreiro da rega, que só tinha água na altura da rega dos campos. Para não estragar o carreiro, o meu avô tinha feito uma pequena ponte com uma tábua de madeira, a água passava por baixo. Depois de passar esta ponte improvisada andava mais um pouco e ia dar a um local que eu tinha que ter uma atenção especial, até porque era sempre avisada de que não podia ir para esse sítio, era o tanque de água onde a minha avó lavava a roupa, era um tanque muito grande, parecia uma piscina, nunca percebi muito bem donde vinha a água, não havia qualquer torneira, era mais uma dessas coisas inventadas pelo meu avô que fazia com que a água da mina viesse ter ao tanque. Aqui eu andava sempre com atenção redobrada, não podia haver qualquer deslize, eu sabia que era perigoso.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Arouca # 2


Logo pegado ao aido estava o galinheiro, mais uma vez um espaço construído pelo meu avô, era um recanto que tinha dois espaços separados por uma rede de arame, num dos espaços estavam as galinhas que punham ovos e no outro espaço maior estavam as restantes galinhas com os galos e os garnizés. Este era um local que eu visitava sempre e a que estava sempre atenta, não é que as galinhas interagissem comigo, porque não o faziam, mas eu gostava de as contemplar, gostava de observar o seu comportamento e a capacidade que tinham de estar sempre a comer, claro que também lhes dava comida, desde pedaços de broa, milho e cascas de uvas, comiam tudo, às vezes havia pintainhos, desses eu gostava especialmente.
Em frente ao galinheiro passando um caminho de terra, encontrava-se um local muito especial, que estava sempre sob a minha vigilância, tanto de inverno como de verão. Aí encontrava-se uma ramada que tinha uvas americanas. Eu adorava uvas americanas, comia-as quase compulsivamente, eu tinha uma forma muito especial de as comer, pegava na uva com os dedos indicador e polegar depois de arrancá-la do cacho chegava à boca a uva pelo orifício a que estava presa ao cacho e pressionava com os dedos a uva que saltava por este orifício para a minha boca, ficando a pele da uva nos meus dedos. Eu estava sempre muito atenta ao desenvolvimento das uvas americanas, sempre que ia à aldeia fora da época das uvas ia visionar como estavam a crescer, quantos cachos tinham, se havia algum parasita e deste modo conhecia todos os locais nos campos do meu avô onde cresciam uvas americanas e também outros locais que não pertenciam ao meu avô, nos campos vizinhos.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Arouca # 1


A primeira coisa que eu fazia quando chegava a casa do meu avô que ficava em Arouca, era ir dar uma vista de olhos nos meus locais preferidos. Percorria com algum cuidado o caminho de terra da esquerda quem saía pela porta da cozinha porque a minha avó tinha visto uma cobra passar por ali, nunca mais esqueci e durante algum tempo não passei por lá, mas depois fui-me aventurando, mas sempre com atenção, o que eu fazia muitas vezes era passar a correr, muito rápido. Depois de ter percorrido este caminho que tinha uma leve inclinação, ia dar a uma curva, onde do lado direito havia um palheiro, era uma espécie de cabana de índios feita com canas de milho, não percebia muito bem para que se fazia aquilo, depois descobri que era uma forma de armazenar as canas que eram utilizadas para diversos fins, como por exemplo pôr no chão do curral onde estavam as vacas e os porcos, pois este ia precisando de ser renovado, geralmente o solo que estava com excrementos era utilizado como estrume para fertilizar a terra. Depois de passar este palheiro encontrava-se do lado esquerdo a porta do aido, que era uma porta de madeira que se abria accionando um pequeno mecanismo que consistia numa trave de madeira que estava presa à porta que por sua vez encaixava num outro pedaço de madeira do lado de fora quando a porta estava fechada, para se abrir a porta puxava-se a ponta da trave de madeira levantando-a que fazia com que desencaixasse do outro pedaço de madeira que estava do lado de fora e que no fundo fazia de fecho. O aido era tipo arrecadação, era um espaço amplo, com prateleiras de madeira construídas pelo meu avô, ali havia de tudo, cordas, parafusos, borrachas, paus, tubos, enxadas, foices, martelos, a bomba de sulfatar, as tesouras da poda e ainda batatas, cebolas e muito mais. O Aido era um espaço absolutamente imprescindível durante as minhas estadias na aldeia, quando queria algo era sempre ali que recorria e onde encontrava sempre alguma coisa.