
Ia praticamente todos os dias à farmácia comprar Melhoral, que eram umas pastilhas brancas que vinham dentro de uma caixa azul. Cresci a ver a minha mãe a tomar Melhoral para tudo, para as dores de cabeça, as dores de costas, as dores de pernas, as dores de irritação e até para as não dores. Ainda era pequena quando comecei a ir sózinha à farmácia, mas era um recado que gostava muito de fazer porque a farmácia ficava um pouco distante e demorava mais tempo do que ir à loja que ficava ao lado de casa. Geralmente ia por um caminho e voltava por outro, no percurso da estrada em obras abandonada podia observar alguns dos prédios que constituíam o bairro, as suas fachadas com as roupas estendidas nas varandas e janelas, e no percurso do interior do bairro observava as pessoas, a forma como andavam e falavam, o que transportavam. Era como se um caminho fossem as paredes da casa e o outro os seus habitantes, tão diferentes da minha casa, que eu sentia ser melhor, apesar das dores da minha mãe.